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Indonésia recebe o Giuseppe Garibaldi e prepara seu primeiro porta-aviões, o futuro KRI Sriwijaya

Por João Victor Castro, Forças Globais - 22 de Setembro de 2026

A chegada do antigo ITS Giuseppe Garibaldi a Jacarta abre uma nova etapa para a Tentara Nasional Indonesia Angkatan Laut (TNI AL), a Marinha da Indonésia. O navio atracou no cais 107 do porto de Tanjung Priok, em 18 de setembro, após deixar a Itália em 24 de agosto. A cerimônia de transferência e a troca da bandeira italiana pela indonésia estavam previstas para 24 de setembro.


Depois da transferência, o navio deverá receber o nome KRI Sriwijaya, em referência ao antigo reino marítimo de Srivijaya, que teve origem em Sumatra e exerceu influência comercial e naval no Sudeste Asiático entre os séculos VII e XIII. O processo ainda não transforma automaticamente o Giuseppe Garibaldi em uma força de combate pronta. A Indonésia terá de adaptar uma plataforma construída na década de 1980, formar pessoal especializado e definir como empregará um navio projetado originalmente para operar aeronaves de decolagem curta e pouso vertical, além de helicópteros.

Da bandeira italiana ao KRI Sriwijaya

O Giuseppe Garibaldi chegou à Indonésia ainda antes da transferência formal. Segundo o chefe do Estado-Maior da TNI AL, almirante Muhammad Ali, o navio seria entregue oficialmente em 24 de setembro, em Tanjung Priok. A mesma cerimônia deveria marcar a mudança da bandeira e a incorporação à frota indonésia. Enquanto aguardava a conclusão do processo, a embarcação já passava por ajustes visuais e preparativos para a nova fase. A mudança de nome, portanto, deve ser tratada como uma etapa programada, e não como um fato consumado na data desta reportagem.


A chegada ocorreu depois de uma travessia desde Taranto, com passagem por Colombo, no Sri Lanka, e pelo estreito de Malaca, segundo informações divulgadas pela Marinha indonésia. O navio também recebeu escolta de unidades italianas durante parte da viagem e, ao entrar nas águas indonésias, foi acompanhado pelos navios KRI Brawijaya-320 e KRI Prabu Siliwangi-321.

O primeiro porta-aviões da Indonésia

Com a incorporação, a Indonésia passará a operar seu primeiro porta-aviões. O país deverá se tornar o segundo do Sudeste Asiático a contar com uma embarcação desse tipo em sua frota, depois da Tailândia, que opera o HTMS Chakri Naruebet. O Giuseppe Garibaldi foi projetado como um cruzador de aviação — uma solução que combinava funções de comando, defesa e operação de aeronaves — e posteriormente empregado pela Marinha italiana como porta-aviões leve. Construído pela Fincantieri, entrou em serviço em 1985 e foi retirado da frota italiana em 2024.


A embarcação tem 180,2 metros de comprimento, deslocamento de aproximadamente 13.850 toneladas e velocidade máxima de cerca de 30 nós. Seu sistema de propulsão usa quatro turbinas a gás LM2500. A capacidade divulgada pela Marinha indonésia chega a 18 helicópteros e até 830 pessoas, embora a configuração real dependa da missão, da aeronave empregada e das adaptações que ainda serão realizadas.


O convoo inclui uma rampa do tipo ski-jump na proa. Na configuração italiana, esse recurso permitia apoiar operações com aeronaves de decolagem curta e pouso vertical, especialmente os AV-8B Harrier II Plus, além de diferentes modelos de helicópteros. Não há, porém, anúncio de que a Indonésia vá operar caças embarcados no navio.

Uma plataforma para desastres e operações militares além da guerra

A justificativa mais enfatizada pelas autoridades indonésias é o emprego do futuro KRI Sriwijaya em Operações Militares Além da Guerra, categoria que inclui missões humanitárias, apoio logístico e resposta a desastres. A geografia do país ajuda a explicar essa prioridade. A Indonésia é formada por milhares de ilhas, muitas delas afastadas dos principais centros urbanos e sujeitas a terremotos, tsunamis, enchentes, erupções vulcânicas e incêndios florestais. Um navio capaz de transportar helicópteros, pessoal, equipamentos e suprimentos pode alcançar áreas onde aeroportos, estradas ou bases terrestres estejam danificados ou simplesmente não existam.


O presidente Prabowo Subianto também mencionou o emprego da embarcação no combate a incêndios florestais e em outras emergências. O chefe da TNI AL afirmou que o navio poderia transportar helicópteros para lançar rapidamente ajuda e logística em regiões remotas. Ele também disse que a embarcação poderia ser empregada em missões de combate se necessário. Nesse cenário, o Sriwijaya funcionaria menos como um porta-aviões de ataque convencional e mais como uma plataforma móvel de comando, transporte e apoio aéreo. Essa distinção é importante: a simples posse do navio não significa que a Indonésia tenha criado uma ala aérea embarcada, uma doutrina de operações com caças ou um grupo-tarefa naval completo.

Drones estão no plano, mas a operação ainda precisa ser definida

As autoridades e analistas também citam drones como parte do possível futuro operacional do navio. Sistemas aéreos não tripulados poderiam ser utilizados em vigilância marítima, reconhecimento, busca e salvamento, acompanhamento de embarcações e avaliação de áreas atingidas por desastres. A capacidade efetiva dependerá, contudo, do tipo de drone escolhido e das adaptações necessárias no convoo, nos sistemas de controle, na manutenção e na comunicação. A existência de espaço físico e de uma rampa não basta para garantir a operação de qualquer aeronave não tripulada. Até a data de corte desta matéria, não havia anúncio público de um esquadrão embarcado definitivo para o KRI Sriwijaya.

Modernização: o ponto central do programa

A Indonésia recebeu o navio como uma doação do governo italiano, mas a transferência não elimina os custos de adaptação, manutenção e operação. O Ministério das Finanças indonésio aprovou um financiamento de US$ 450 milhões para o programa, enquanto parlamentares e analistas alertaram que a conta total pode ser maior. A modernização deverá ser realizada principalmente por empresas e estaleiros indonésios, escolhidos conforme os mecanismos de contratação do país. Também existe a possibilidade de participação estrangeira como fornecedora de equipamentos ou componentes que não estejam disponíveis localmente.


É importante não afirmar, sem uma confirmação adicional, que a Fincantieri já tenha sido contratada para executar a modernização em conjunto com a estatal PT PAL Indonesia. A Fincantieri é a construtora original do navio e foi associada ao histórico técnico da plataforma, mas as fontes consultadas descrevem a participação de empresas locais e possíveis fornecedores externos, sem confirmar um contrato específico entre as duas companhias. O trabalho deverá incluir a atualização de sistemas e a adequação do navio às necessidades da TNI AL. Mais do que prolongar a vida útil de uma embarcação antiga, o projeto será um teste para a capacidade indonésia de manter, integrar e operar uma grande plataforma de aviação naval.

O desafio de criar uma nova cultura operacional

Operar um navio desse porte exige mais do que uma tripulação numerosa. A TNI AL terá de desenvolver procedimentos de controle de voo, movimentação de aeronaves, manutenção aeronáutica, combate a incêndios, controle de avarias, propulsão, comunicações e logística.Militares indonésios participaram do processo de transferência e da viagem desde a Itália, o que permitiu contato antecipado com a plataforma. Ainda assim, a experiência precisará ser transformada em treinamento contínuo, infraestrutura em terra e uma doutrina própria de emprego.


O custo também não termina na modernização. Combustível, peças, manutenção, pessoal, aeronaves, treinamento e navios de apoio determinarão se o futuro KRI Sriwijaya conseguirá permanecer operacional com regularidade. Especialistas ouvidos pela imprensa internacional alertaram que o programa pode pressionar o orçamento indonésio e que o país precisa avaliar se a plataforma atende a uma necessidade operacional real.

Uma segunda vida para o Giuseppe Garibaldi

O antigo Giuseppe Garibaldi chega à Indonésia depois de quatro décadas de serviço italiano. Em sua primeira carreira, foi uma plataforma de aviação embarcada, navio-capitânia e centro de comando. Em sua segunda vida, deverá começar com uma missão diferente: apoiar helicópteros, transportar equipamentos, coordenar operações e ampliar a capacidade de resposta em um arquipélago de dimensões continentais.


O verdadeiro impacto da aquisição não será medido apenas pelo tamanho do navio ou pelo simbolismo de a Indonésia ter seu primeiro porta-aviões. Ele dependerá da capacidade de transformar uma embarcação concebida durante a Guerra Fria em uma ferramenta adequada às prioridades indonésias do século XXI.


A cerimônia prevista para 24 de setembro poderá marcar a troca da bandeira. A transformação operacional, porém, começará depois dela — com a modernização, a formação da tripulação e a definição do papel que o KRI Sriwijaya desempenhará na Marinha da Indonésia.

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