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Por João Victor Castro, Forças Globais - 22 de Setembro de 2026
A Coreia do Sul deu um dos passos mais importantes de sua história aeronáutica militar. Em 22 de setembro de 2026, a Korea Aerospace Industries (KAI) entregou à Força Aérea da República da Coreia o primeiro exemplar de produção do KF-21 Boramae.
A aeronave, identificada nas fontes como 25-001 e também descrita como a aeronave de produção número 001, deixou as instalações da KAI em Sacheon, na província de Gyeongsang do Sul, e voou para a Base Aérea de Yecheon, na província de Gyeongsang do Norte. O traslado marcou a passagem do programa de desenvolvimento e testes para uma nova etapa: a introdução progressiva do caça na estrutura da Força Aérea sul-coreana.
O momento, porém, não deve ser confundido com a entrada imediata em plena capacidade de combate. O primeiro avião será usado na formação de pilotos, na qualificação de equipes de manutenção e na consolidação dos procedimentos operacionais. A Força Aérea pretende declarar o KF-21 operacional no segundo semestre de 2027, depois da conclusão de novas etapas de treinamento, avaliação e organização logística.
O Boramae é, portanto, mais do que um novo avião de combate. Ele representa o resultado de mais de duas décadas de decisões políticas, investimentos, desenvolvimento tecnológico, testes e negociações internacionais. Pela primeira vez, a Coreia do Sul passa a operar um caça supersônico projetado e produzido nacionalmente para ocupar uma posição central em sua aviação de combate.



A história do KF-21 começa em março de 2001, quando o então presidente sul-coreano Kim Dae-jung anunciou a intenção de desenvolver um caça nacional. O objetivo era substituir gradualmente aeronaves antigas e criar uma indústria capaz de projetar, fabricar, atualizar e sustentar aviões de combate avançados. O projeto passou por estudos de viabilidade, revisões orçamentárias e discussões sobre requisitos operacionais até chegar ao programa KF-X, posteriormente denominado KF-21 Boramae. O desenvolvimento formal começou em dezembro de 2015, sob coordenação da Defense Acquisition Program Administration (DAPA).Entre o anúncio político e a entrega da primeira aeronave de produção transcorreram cerca de 25 anos. Esse período reflete a complexidade de desenvolver e integrar motores, radar, computadores de missão, sensores, sistemas de guerra eletrônica, software e armamentos em uma única plataforma.
Por que a Coreia do Sul precisava de um novo caça?
Durante décadas, Seul construiu sua capacidade de combate aéreo com uma combinação de aeronaves produzidas sob licença e modelos estrangeiros, principalmente americanos. A frota incluiu o F-4 Phantom II, o F-5E Tiger II, o KF-16, o F-15K Slam Eagle e, posteriormente, o F-35A Lightning II. O problema é que parte dessa frota começou a envelhecer. O F-4 pertence a uma geração desenvolvida na década de 1950, enquanto o F-5 também deriva de um projeto do mesmo período. Mesmo modernizados, esses aviões exigem mais manutenção e encontram limitações para incorporar novos radares, computadores, sistemas de guerra eletrônica e armamentos. Para uma Força Aérea localizada em uma região de elevada tensão militar, a idade da frota afeta diretamente a prontidão. O KF-21 foi concebido para substituir progressivamente os F-4 e F-5 e ocupar uma posição intermediária entre essas aeronaves e o F-35A.
O Boramae é frequentemente classificado como um caça de 4,5ª geração. A expressão descreve uma aeronave mais avançada que os caças tradicionais de quarta geração, mas que não foi projetada originalmente como um caça furtivo de quinta geração no mesmo conceito do F-35. O KF-21 utiliza arquitetura digital moderna, sensores integrados e elementos destinados a reduzir sua assinatura radar. A primeira versão, entretanto, transporta armamentos externamente, o que pode aumentar a assinatura radar em comparação com uma configuração equipada com compartimentos internos. Essa combinação define o Block I, configuração inicial do caça. O projeto foi estruturado para receber novos sensores, softwares, armas e equipamentos ao longo do tempo, permitindo que a aeronave evolua durante sua vida operacional.
O radar AESA e a guerra em rede
Um dos componentes mais importantes do KF-21 é seu radar de varredura eletrônica ativa, conhecido como AESA. Ao contrário de radares que dependem do movimento físico da antena, o AESA utiliza numerosos módulos emissores e receptores controlados eletronicamente. Isso permite direcionar o feixe com rapidez, detectar e acompanhar alvos e realizar diferentes tarefas de vigilância e apoio ao emprego de armamentos. No KF-21, o radar trabalha junto a sensores infravermelhos, sistemas de autoproteção e outros equipamentos de consciência situacional.
O caça também foi concebido para operar em rede. Aeronaves de combate, aviões de alerta antecipado, radares terrestres, navios e centros de comando podem compartilhar informações para formar uma imagem mais completa do espaço aéreo. Essa capacidade é especialmente importante na Península Coreana, onde as distâncias são curtas e o tempo para detectar e responder a uma ameaça pode ser reduzido. O Boramae, portanto, deve ser entendido como parte de um sistema de combate mais amplo, e não apenas como uma aeronave isolada.

A construção do KF-21 exigiu a ampliação da capacidade sul-coreana em estruturas aeronáuticas, materiais compostos, aviônicos, radar AESA, guerra eletrônica, computadores de missão e integração de armamentos. Seis protótipos foram utilizados durante os ensaios. Segundo informações da DAPA e do governo sul-coreano, foram realizados cerca de 1.600 voos de teste e aproximadamente 13 mil avaliações de condições de voo, incluindo reabastecimento em voo e emprego de armas.
O primeiro voo ocorreu em 19 de julho de 2022. Em maio de 2026, o KF-21 recebeu a certificação de que era adequado para o combate, depois de completar as avaliações de desempenho e estabilidade exigidas para o programa. A certificação não significa que todos os desenvolvimentos futuros estejam concluídos. Ela indica que a configuração inicial atingiu os requisitos operacionais estabelecidos e está pronta para avançar para a fase de introdução na Força Aérea.
O primeiro KF-21 de produção
O primeiro exemplar entregue pertence à configuração Block I e será utilizado para estabelecer os procedimentos necessários aos demais aviões. A aeronave foi destinada ao 156º Esquadrão de Caça, subordinado à 16ª Ala de Caça. A unidade tem relação histórica com o F-4E Phantom II, mas havia sido desativada em 2012. O esquadrão foi reativado em 1º de junho de 2026 para receber e operar o novo caça.
O major Han Jae-seok, um dos primeiros pilotos sul-coreanos treinados para operar o Boramae, assinou os documentos de aceitação e conduziu a aeronave até Yecheon. Durante o voo, o KF-21 foi acompanhado por aeronaves FA-50, TA-50 e T-50. A formação reuniu diferentes etapas da indústria aeronáutica sul-coreana. O T-50 representa a experiência do país em treinadores avançados; o TA-50 acrescenta capacidade de treinamento de combate; e o FA-50 demonstra a transformação dessa experiência em uma aeronave leve de combate exportada para outros países.
O Block I é apenas o começo
Quando entrou em serviço, o Garibaldi ainda não podia operar legalmente aeronaves de combate de asa fixa italianas. A Marinha e a Força Aérea discutiam a competência para empregar esse tipo de aeronave, e a legislação não autorizava de forma clara a utilização de aviões de combate embarcados pela força naval. A questão começou a ser resolvida com a Lei nº 36, de 1º de fevereiro de 1989. A norma autorizou a Marinha Militar a utilizar aviões embarcados para integrar a defesa de suas unidades navais.
A mudança abriu caminho para a criação de uma capacidade que não dependia apenas da existência física do navio. A Marinha precisava formar pilotos, organizar esquadrões, criar equipes de manutenção e preparar uma cadeia logística para operar aeronaves de asa fixa em ambiente marítimo. Também era necessário escolher um avião que se adaptasse ao Garibaldi. Um caça convencional exigiria uma pista mais longa ou o uso de catapultas e cabos de parada. A solução recaiu sobre uma aeronave que pudesse operar com os recursos já previstos no projeto do navio.

A entrega do primeiro avião é uma conquista importante, mas não significa que a Coreia do Sul já possua uma nova frota operacional de KF-21. A Força Aérea terá de formar pilotos e instrutores, qualificar mecânicos, estabelecer estoques de peças, organizar a manutenção dos motores e sistemas eletrônicos e integrar os armamentos. Também será necessário definir como o caça receberá informações de outras plataformas e como atuará ao lado do F-35A, do F-15K, do KF-16, do FA-50 e dos sistemas de defesa aérea terrestres.
A operação de um caça moderno depende de uma infraestrutura que vai além da aeronave. São necessários simuladores, equipamentos de apoio em solo, ferramentas especiais, redes de dados seguras, bancos de teste e equipes de inteligência e planejamento. A diferença entre receber o avião e atingir capacidade operacional é essencial. A entrega demonstra que a produção começou; a capacidade operacional demonstrará que a Força Aérea consegue empregar o caça de maneira repetida, integrada e confiável.
Depois de desenvolver o caça, a Coreia do Sul terá de provar que consegue produzi-lo em quantidade. Construir protótipos é diferente de manter uma linha industrial capaz de fabricar dezenas de aeronaves com qualidade, regularidade e controle de custos. A produção seriada exige uma cadeia de fornecedores estável, disponibilidade de componentes, controle de qualidade e capacidade de corrigir problemas sem comprometer o cronograma. A manutenção também precisa evoluir junto com a entrega dos aviões.
O KF-21 representa a consolidação de uma indústria aeronáutica militar que começou produzindo aeronaves sob licença e treinadores. A experiência adquirida abrange estruturas, materiais compostos, aviônicos, radar AESA, sistemas de missão, guerra eletrônica e integração de armamentos. Esse conhecimento aumenta a autonomia sul-coreana para atualizar sua frota e cria oportunidades de exportação. O sucesso comercial do Boramae dependerá, porém, de preço, desempenho, disponibilidade, suporte logístico, financiamento e capacidade de integração com diferentes armamentos.

A Indonésia entrou no programa como parceira de desenvolvimento e assumiu compromissos financeiros e industriais. A parceria passou por dificuldades relacionadas ao atraso nos pagamentos e a discussões sobre transferência de tecnologia, participação industrial e compartilhamento de dados. Em junho de 2026, Jacarta concluiu o pagamento de sua contribuição revisada de 600 bilhões de won, segundo informações divulgadas pela DAPA e pelo Korea Herald. O valor inclui a transferência de um protótipo, custos de pesquisadores indonésios e despesas relacionadas à transferência de tecnologia.
A conclusão do pagamento reabriu a expectativa de transferência do quinto protótipo para a Indonésia. Isso é diferente de uma aquisição automática de aeronaves de produção. Um eventual contrato para a compra de KF-21 pela Força Aérea indonésia ainda era tratado como possibilidade ou negociação reportada, não como compra confirmada nas fontes consultadas. Para a KAI, um usuário estrangeiro ajudaria a demonstrar que o Boramae pode ser integrado a uma força aérea diferente daquela que participou de seu desenvolvimento. Para Jacarta, o interesse está ligado à modernização da aviação de combate e à busca por maior participação industrial.
Um novo capítulo na aviação militar sul-coreana
A chegada do primeiro KF-21 de produção encerra uma etapa iniciada em 2001, quando a Coreia do Sul anunciou a intenção de desenvolver um caça nacional. Foram mais de duas décadas de estudos, desenvolvimento, negociações, testes e investimentos até que a primeira aeronave produzida em série chegasse oficialmente à Força Aérea.O desafio agora deixou de ser apenas tecnológico. Será necessário demonstrar que o KF-21 pode ser produzido em quantidade, mantido com elevada disponibilidade, integrado aos armamentos previstos e empregado de forma eficiente dentro da rede de combate sul-coreana.
Para a República da Coreia, entretanto, o significado da entrega é maior do que o de um novo caça. O Boramae representa a transformação de um país que durante décadas dependeu principalmente de projetos estrangeiros em um Estado capaz de projetar, desenvolver, produzir e evoluir seu próprio caça supersônico. O primeiro KF-21 de produção já está em Yecheon. Agora começa a fase mais importante: transformar uma conquista industrial e tecnológica em uma capacidade operacional efetiva para a Força Aérea sul-coreana.