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Por João Victor Castro, Forças Globais - 08 de Outubro de 2026
Após os Estados Unidos defenderem a venda do F-35A, Lisboa afirma que a decisão será tomada com base no interesse nacional. A nova Lei de Programação Militar deverá definir o enquadramento dos investimentos para renovar a aviação de combate.

Portugal se aproxima de uma das decisões mais importantes para o futuro de sua aviação militar. A substituição dos caças F-16AM/BM, modernizados pelo programa MLU, entrou em uma nova fase de movimentação diplomática e comercial, com quatro fabricantes interessados em fornecer a próxima geração de aeronaves de combate à Força Aérea Portuguesa.
A competição reúne o F-35A Lightning II, da americana Lockheed Martin; o Rafale, da francesa Dassault Aviation; o Eurofighter Typhoon, oferecido pelo consórcio europeu do qual a Airbus participa; e o Gripen E, da sueca Saab. Embora o F-35A esteja entre os principais candidatos, Portugal ainda não tomou uma decisão oficial. Avaliações técnicas divulgadas anteriormente apontaram uma possível preferência da Força Aérea pelo modelo americano, mas isso não equivale a uma escolha do governo. O governo também não iniciou formalmente o processo de aquisição.
O cenário ganhou um novo elemento em 8 de outubro de 2026, quando o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, esteve em Lisboa e defendeu publicamente a compra do F-35A. Após a reunião, o ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, confirmou que a proposta americana está sendo considerada seriamente, mas ressaltou que a escolha continuará aberta e será orientada pelo interesse nacional. A declaração reforça a importância estratégica da disputa. A decisão portuguesa não envolverá apenas a capacidade de combate dos aviões, mas também o orçamento de defesa, as relações com os aliados, a interoperabilidade dentro da OTAN e as oportunidades para a indústria aeronáutica nacional.

A Força Aérea Portuguesa opera 28 caças F-16M, segundo informações divulgadas sobre o programa de substituição. As aeronaves foram incorporadas a partir da década de 1990 e passaram por modernizações que ampliaram sua capacidade de combate e prolongaram sua vida operacional. O programa Mid-Life Update, conhecido pela sigla MLU, permitiu atualizar aviônicos, sistemas de missão, comunicações e capacidade de emprego de armamentos. Essas melhorias mantiveram os F-16 relevantes para missões de defesa aérea e operações conjuntas com aliados.
A modernização, porém, não elimina o envelhecimento das células. Com o passar do tempo, a manutenção tende a se tornar mais complexa, e a disponibilidade operacional passa a depender cada vez mais da gestão de peças, reparos e recursos técnicos. A substituição não significa necessariamente que Portugal comprará exatamente 28 aeronaves novas. Discussões divulgadas anteriormente apontaram para uma possível aquisição de 14 a 28 caças, mas a quantidade definitiva dependerá das necessidades operacionais estabelecidas e dos recursos disponibilizados.
Uma frota menor pode reduzir o investimento inicial, mas também limita a quantidade de aeronaves disponível para treinamento, manutenção, alerta permanente e missões internacionais. Uma frota maior amplia a capacidade operacional, embora exija mais recursos para aquisição, armamentos, infraestrutura e sustentação. Por isso, o número de aeronaves será uma das decisões centrais do programa.
Lei de Programação Militar pode viabilizar a renovação
O avanço político mais importante antes da abertura formal da aquisição é a inclusão da substituição dos F-16 na nova Lei de Programação Militar portuguesa. O chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, general João Cartaxo Alves, confirmou em setembro que a renovação da aviação de combate deverá integrar a nova legislação, cuja apresentação ao Parlamento está prevista para antes do final de 2026.
A Lei de Programação Militar organiza os principais investimentos das Forças Armadas ao longo de um horizonte plurianual. Sua função é estabelecer as bases para financiar projetos de defesa que exigem grandes compromissos financeiros e execução ao longo de vários anos. No caso dos novos caças, esse enquadramento será fundamental para transformar as discussões atuais em um programa de aquisição estruturado.
O investimento não termina com a compra das aeronaves. Portugal terá de financiar armamentos, simuladores, formação de pilotos e técnicos, instalações, equipamentos de manutenção, peças sobressalentes e atualizações de sistemas. Também será necessário planejar a transição entre as duas gerações de aeronaves para evitar uma redução significativa da capacidade de defesa aérea durante a retirada gradual dos F-16.
O valor total dependerá do número de caças, da configuração escolhida e dos serviços incluídos no contrato. Estimativas divulgadas anteriormente pela imprensa portuguesa apontaram para um programa que poderia alcançar vários bilhões de euros, mas ainda não existe um valor oficial definitivo.


Durante a visita a Portugal, Marco Rubio defendeu que o país considere a aquisição do F-35A Lightning II e afirmou que Washington pretende apresentar uma proposta competitiva. O secretário de Estado norte-americano também pediu uma oportunidade justa para que a oferta dos Estados Unidos seja avaliada. A decisão, contudo, permanece sob responsabilidade das autoridades portuguesas.
A resposta de Paulo Rangel foi importante para esclarecer o estágio atual do processo. O ministro confirmou que Portugal está considerando seriamente a proposta do F-35, mas afirmou que outras alternativas continuam sendo analisadas. Segundo ele, a decisão será conduzida pelo governo português de acordo com os interesses nacionais, não sendo uma escolha exclusiva do Ministério dos Negócios Estrangeiros. A posição de Lisboa mostra que o interesse norte-americano não elimina a concorrência europeia. Pelo contrário, a pressão diplomática tende a aumentar a importância das propostas comerciais, industriais e financeiras apresentadas pelos demais fabricantes.
O F-35 possui argumentos importantes. É uma aeronave de quinta geração, desenvolvida com ênfase em baixa observabilidade, fusão de sensores, guerra em rede e compartilhamento de informações com outras plataformas. Sua adoção por diversos países europeus integrantes da OTAN também amplia as possibilidades de integração operacional. Entretanto, o programa exige investimentos significativos em infraestrutura, treinamento, manutenção e suporte. Portugal precisará avaliar esses custos ao longo de toda a vida útil da futura frota, além de considerar as condições de acesso a equipamentos, atualizações e serviços de sustentação.
A escolha também aprofundaria a integração militar e tecnológica portuguesa com os Estados Unidos, uma relação que já existe por meio da operação dos F-16 e da participação de ambos os países na OTAN.


Enquanto Washington promove o F-35, a Airbus prepara uma proposta para fornecer o Eurofighter Typhoon a Portugal. A Airbus anunciou que pretende apresentar uma proposta não solicitada entre o fim de outubro e o início de novembro de 2026. A proposta deverá incluir soluções de financiamento público e privado, participação industrial e cooperação militar. O Eurofighter foi desenvolvido por Alemanha, Reino Unido, Itália e Espanha, com participação de diferentes empresas europeias. A aeronave possui dois motores EJ200 e foi concebida originalmente com forte ênfase em superioridade aérea e interceptação.
Ao longo de sua evolução, o Typhoon recebeu capacidades adicionais para ataque ao solo e outras missões, transformando-se em uma plataforma multifunção. As configurações mais recentes também incorporam avanços em radares, sensores, processamento de dados e sistemas de missão. A Airbus argumenta que o perfil operacional português favorece o Eurofighter. Entre as principais necessidades da Força Aérea estão o policiamento aéreo, as missões de alerta de reação rápida da OTAN e a proteção do espaço aéreo e das águas nacionais. Essas tarefas exigem aeronaves capazes de manter prontidão, interceptar alvos e operar de maneira integrada com os sistemas de vigilância e comando dos aliados.
A empresa também pretende utilizar a proposta para ampliar a cooperação entre Portugal e os países europeus participantes do programa. A participação industrial e o financiamento serão importantes para tentar tornar o pacote competitivo diante da oferta americana. O argumento da Airbus, entretanto, representa a posição comercial da fabricante. A decisão portuguesa dependerá da avaliação global dos requisitos militares, dos custos e das condições contratuais.


A Dassault Aviation também intensificou sua campanha para fornecer o Rafale. A empresa apresentou uma proposta ao governo e à Força Aérea Portuguesa em julho de 2026. Em setembro, assinou um memorando de entendimento com a AED Cluster Portugal para identificar oportunidades de cooperação entre a indústria nacional e as empresas envolvidas no programa. O acordo abrange a Dassault, responsável pela aeronave, a Thales, fornecedora de sensores e sistemas eletrônicos, e a Safran, fabricante dos motores M88 e de outros equipamentos.
O memorando não representa uma encomenda nem significa que Portugal tenha escolhido o Rafale. Seu objetivo é identificar possíveis áreas de participação de empresas, universidades e centros de investigação portugueses. O Rafale é um caça bimotor multifunção capaz de executar missões de defesa aérea, ataque terrestre e reconhecimento. A França também utiliza versões embarcadas em seu porta-aviões, enquanto diferentes operadores internacionais empregam a aeronave em configurações adaptadas às suas necessidades.
A Dassault procura demonstrar que a aquisição poderia gerar benefícios para Portugal além da entrega dos caças, incluindo oportunidades de manutenção, apoio logístico, modernização e integração industrial. Esse componente pode ganhar importância em um processo no qual o governo português deseja ampliar a concorrência e maximizar o retorno econômico de um investimento militar de grande dimensão.


A Saab, fabricante do Gripen E, procura se diferenciar por meio da flexibilidade operacional e da participação industrial. A empresa vem estabelecendo contatos e acordos com organizações portuguesas, incluindo a OGMA, a Critical Software e a AED Cluster Portugal. Também defende que a indústria nacional possui potencial para integrar a cadeia de produção e sustentação do caça.
A OGMA tem uma posição particularmente interessante nessa discussão. Controlada pela Embraer, a empresa portuguesa está ligada ao setor aeronáutico brasileiro, e a Embraer participa do programa Gripen no Brasil. A experiência brasileira oferece à Saab um exemplo concreto de cooperação industrial, com participação de empresas nacionais em atividades de produção, engenharia, desenvolvimento e suporte.
A fabricante sueca considera que parte dessa experiência poderia ser aproveitada em Portugal, embora a definição das atividades dependa de acordos comerciais, requisitos técnicos e compromissos assumidos em uma eventual proposta. O Gripen E é equipado com um motor General Electric F414G e incorpora radar AESA, sensores modernos, sistemas de guerra eletrônica e uma arquitetura projetada para facilitar atualizações.
Para Portugal, o interesse não estaria apenas na aeronave, mas também na possibilidade de desenvolver competências industriais locais e ampliar a participação nacional na manutenção e no suporte da futura frota. A Saab, porém, ainda precisa transformar essa estratégia em uma proposta que responda aos requisitos e ao calendário que forem estabelecidos pelas autoridades portuguesas.

Os quatro modelos representam caminhos diferentes para a modernização da aviação de combate portuguesa. O F-35A oferece baixa observabilidade, fusão de sensores e integração com uma crescente comunidade de operadores da OTAN. O Eurofighter Typhoon destaca a capacidade de combate aéreo, a interceptação e a cooperação com a indústria europeia. O Rafale combina capacidade multifunção com uma cadeia industrial francesa integrada e oportunidades de cooperação com empresas portuguesas. O Gripen E procura associar desempenho operacional, flexibilidade de atualização e participação industrial, utilizando a experiência brasileira como referência.
A escolha não será determinada exclusivamente pelas características técnicas de cada aeronave. Portugal precisará comparar o custo total de operação, a disponibilidade esperada, o armamento incluído, as condições de manutenção, a infraestrutura necessária e o grau de participação industrial oferecido. A interoperabilidade também terá peso elevado. Como integrante da OTAN, Portugal precisa garantir que os novos caças possam operar em conjunto com aeronaves aliadas, compartilhar informações e participar de missões coletivas. Ao mesmo tempo, a escolha poderá influenciar a relação de Lisboa com os Estados Unidos e com seus parceiros europeus durante décadas.
Autonomia europeia também entra no debate
A disputa ocorre em um momento no qual a Europa discute como fortalecer sua própria capacidade industrial e reduzir vulnerabilidades estratégicas. A compra de um caça norte-americano pode proporcionar integração com uma ampla rede de operadores e sistemas da OTAN. Por outro lado, a escolha de uma plataforma europeia poderia reforçar a cooperação industrial e tecnológica dentro do continente.
Essa distinção não significa que uma aeronave europeia seja automaticamente mais independente ou que um caça norte-americano impeça qualquer autonomia nacional. O grau de liberdade operacional dependerá dos contratos, do acesso a peças, softwares, atualizações e armamentos, bem como da capacidade de manutenção e integração de sistemas.
O presidente português António José Seguro também defendeu publicamente a importância da autonomia europeia em matéria de defesa e sugeriu maior concertação entre os países europeus nas escolhas de equipamentos. Essa posição acrescenta outra dimensão à discussão: Portugal precisará avaliar seus compromissos com os aliados, mas também os benefícios de fortalecer a capacidade industrial europeia. A decisão final poderá, portanto, ter implicações que ultrapassam a Força Aérea e se estendem à política de defesa, à diplomacia e à estratégia industrial do país.
O que ainda falta definir
A reunião de Marco Rubio com as autoridades portuguesas deixou claro que os Estados Unidos pretendem disputar o contrato e estão dispostos a defender o F-35A no mais alto nível diplomático. A resposta de Lisboa, contudo, foi igualmente clara: a proposta americana será considerada seriamente, mas não existe uma escolha concluída.
O governo ainda precisará definir os requisitos, estabelecer o enquadramento financeiro e iniciar o processo formal de aquisição. Até lá, os fabricantes continuarão apresentando argumentos técnicos, financeiros, industriais e estratégicos para conquistar espaço. O Eurofighter prepara uma nova proposta, a Dassault reforça seus vínculos com a indústria portuguesa e a Saab tenta transformar sua experiência de cooperação industrial em uma vantagem competitiva. A Lockheed Martin, por sua vez, aposta na tecnologia de quinta geração do F-35 e na integração com os aliados que já operam o modelo.
A disputa ainda está em fase preliminar: Portugal não abriu um processo formal de compra nem anunciou uma aeronave vencedora. Os próximos passos — da definição dos requisitos ao modelo de financiamento — serão decisivos para determinar quais propostas avançarão. Até que o processo formal comece, os quatro fabricantes continuarão a apresentar suas propostas. A decisão de Lisboa dependerá da combinação entre necessidades militares, custos ao longo de todo o ciclo de vida e benefícios concretos para Portugal.