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Por João Victor Castro, Forças Globais - 20 de Julho de 2026
O deserto do Atacama, conhecido por ser um dos ambientes mais áridos e desafiadores do planeta, tornou-se o epicentro da aviação militar global entre os dias 29 de junho e 11 de julho de 2026. O Exercício Multinacional Salitre 2026, sediado na Base Aérea de Cerro Moreno, em Antofagasta, não foi apenas mais um treinamento; foi uma demonstração de força, tecnologia e, acima de tudo, integração. Sob a coordenação da Força Aérea do Chile (FACh), mais de 1.500 militares e cerca de 60 aeronaves de sete nações transformaram os céus chilenos em um laboratório de guerra moderna, operando sob os rigorosos padrões da OTAN e explorando o conceito de operações multidomínio.
O grande diferencial desta edição foi a transição de um foco puramente aéreo para um ambiente que integra os domínios terrestre, marítimo, espacial e ciberespacial. A inclusão de uma Célula Espacial, utilizando sensores satelitales para inteligência e suporte, e operações de defesa cibernética para proteger os sistemas de Comando e Controle (C2), elevou o Salitre a um novo patamar de complexidade, refletindo os desafios reais dos conflitos do século XXI.

Para compreender a magnitude do Salitre, é preciso entender sua mecânica operacional. O exercício é estruturado para simular uma crise internacional fictícia que exige a intervenção de uma coalizão multinacional sob mandato da ONU. A dinâmica é dividida em fases progressivas que testam desde o planejamento estratégico até a execução tática no campo de batalha.
1. Fase de Planejamento e Implantação (Deployment)
Antes do primeiro caça decolar, meses de planejamento ocorrem nas reuniões FPC (Final Planning Conference). Nesta fase, as nações definem as regras de engajamento, os protocolos de comunicação e a logística de deslocamento. A chegada das aeronaves em Antofagasta é, por si só, um teste de projeção de poder, como demonstrado pelos Gripens brasileiros que percorreram mais de 2.500 km para chegar ao teatro de operações.
2. Fase de Familiarização (FAM/FIT)
Nos primeiros dias, ocorrem os voos de FAM (Familiarização) e FIT (Forces Integration Training). Os pilotos voam em áreas designadas para conhecer a geografia local e os procedimentos de tráfego aéreo. É o momento de alinhar as linguagens técnicas e garantir que todos os participantes, independentemente da nacionalidade, operem sob a mesma doutrina de segurança.
O coração do Salitre é a fase LIVEX, onde as forças são divididas em dois grupos distintos:
4. Operações Aéreas Compostas (COMAO)
O ápice do treinamento são as missões COMAO (Composite Air Operations). Nestas missões, dezenas de aeronaves de diferentes tipos e países decolam simultaneamente para cumprir um objetivo comum. Um pacote COMAO típico pode incluir caças de superioridade aérea (como o Gripen e o F-16) abrindo caminho, aeronaves de ataque (Super Tucano e Pampa) destruindo alvos no solo, aviões-tanque (KC-390 e KC-135) garantindo combustível, e drones (MQ-9) fornecendo inteligência constante. Tudo isso é coordenado em tempo real pelo CAOC (Combined Air Operations Center), que funciona como o "cérebro" da operação.
O cenário fictício de crise regional exigiu a formação de uma força de coalizão diversificada, onde a interoperabilidade foi testada ao limite. Abaixo, detalhamos a participação dos principais atores internacionais, destacando a complexidade e a diversidade dos meios empregados:
1. Estados Unidos: Tecnologia de Ponta e Operações Especiais
Os EUA trouxeram uma fatia significativa do poder aéreo moderno, focando em inteligência, vigilância, reconhecimento (ISR) e operações especiais, elementos cruciais para a guerra multidomínio:
2. Chile: O Anfitrião e sua Versatilidade Operacional
A Força Aérea do Chile (FACh), como anfitriã, mobilizou quase toda a sua espinha dorsal operacional, demonstrando sua capacidade de liderança e coordenação em um exercício de grande escala:
3. Argentina: O Poder do IA-63 Pampa III
A Força Aérea Argentina (FAA) marcou presença com um destacamento focado em treinamento avançado e ataque leve, demonstrando a versatilidade de sua indústria nacional:
4. Brasil: A Estreia do Gripen e a Capacidade Logística
A Força Aérea Brasileira (FAB) teve um papel de destaque, não apenas com a estreia internacional de seu novo vetor, mas também com sua capacidade de apoio:
5. Colômbia: Especialistas em Operações Especiais e CSAR
A Força Aérea Colombiana (FAC) enviou uma delegação robusta de 77 militares, focando em capacidades de alta complexidade e proteção de forças:
6. Paraguai: Uma Estreia Histórica com o Super Tucano
A Força Aérea Paraguaia (FAP) alcançou um marco histórico em seu processo de modernização durante o Salitre 2026:






Para a Força Aérea Brasileira (FAB), o Salitre 2026 representou um marco histórico: a primeira participação internacional do caça F-39E Gripen em exercícios militares fora do território nacional. Operados pelo 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA) – Esquadrão Jaguar, sediado em Anápolis (GO), seis caças cruzaram a Cordilheira dos Andes para demonstrar por que o Gripen é considerado o vetor de defesa aérea mais avançado da América Latina.
A participação brasileira não foi apenas simbólica. Os "Jaguares" acumularam mais de 100 horas de voo em 50 saídas, enfrentando adversários em combates aéreos aproximados (dogfights) e além do alcance visual (BVR). O Gripen destacou-se pela sua elevadíssima consciência situacional, proporcionada pela fusão de dados de seus sensores de última geração, como o radar AESA Raven ES-05 e o sensor infravermelho IRST Skyward-G.
"O caça brasileiro foi a aeronave de maior capacidade tecnológica empregada no exercício. A integração entre os sensores permitiu que nossos pilotos compreendessem o cenário tático com uma clareza sem precedentes, tomando decisões mais rápidas e eficientes que os oponentes", afirmou o Oficial, Força Aérea Bras"
Um dos momentos mais celebrados do Salitre 2026 foi a operação conjunta das forças aéreas de Chile, Colômbia e Paraguai utilizando a mesma plataforma: o Embraer A-29B Super Tucano. Pela primeira vez na história regional, essas três nações voaram juntas em uma formação integrada, executando missões de Operações Aéreas Compostas (COMAO) sob doutrina compatível com a OTAN.
Nação | Unidade/Esquadrão | Papel no Exercício |
|---|---|---|
Chile | Esquadrão de Aviação Nº 1 | Apoio aéreo aproximado e interdição aérea. |
Colômbia | Esquadrão Nº 211 (CACOM 2 e 3) | Estreia internacional; foco em apoio tático e ISR. |
Paraguai | Primeiro Esquadrão de Caça | Batismo internacional do novo sistema de armas da FAP. |
A participação da Força Aeroespacial Colombiana (FAC) trouxe uma delegação de 77 militares e incluiu, além dos Super Tucano, helicópteros UH-60L Halcón e AH-60L Arpía IV, especialistas em missões de Busca e Salvamento em Combate (CSAR) e operações especiais. Já a Força Aérea Paraguaia (FAP) celebrou a estreia de seus novos A-29B, adquiridos recentemente da Embraer, demonstrando um salto tecnológico significativo para a instituição. Entre os destaques paraguaios estava a Capitã Cynthia Orué, a primeira mulher piloto de Super Tucano do país a participar de um exercício deste porte.


O Salitre 2026 vai muito além das manobras táticas. O exercício gera benefícios tangíveis para a segurança continental e para a evolução das doutrinas militares:
O encerramento do Salitre 2026 marca o início de uma nova fase para as forças aéreas da América do Sul. As lições aprendidas no deserto do Atacama, os laços de amizade fortalecidos e a validação de novos sistemas de armas, como o F-39 Gripen, garantem que a defesa continental esteja preparada para os desafios de um mundo cada vez mais conectado e imprevisível.