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Por João Victor Castro, Forças Globais - 18 de agosto de 2026
A Força Aérea Paraguaia (FAP) poderá voltar a operar caças supersônicos após décadas sem contar com aeronaves de combate a reação. O país está mantendo conversações com Taiwan para uma possível transferência de aeronaves militares, e entre as opções avaliadas estão os caças Northrop F-5E/F Tiger II e os treinadores avançados AIDC AT-3 Tzu Chung.
A informação foi confirmada pelo ministro da Defesa do Paraguai, general da reserva Óscar González. Segundo ele, as tratativas ainda estão em estágio preliminar e são conduzidas também por canais diplomáticos. Até o momento, não existe um acordo definitivo, e o governo paraguaio não confirmou oficialmente quantas aeronaves poderiam ser transferidas nem quais versões seriam escolhidas.
Caso o negócio avance, o Paraguai poderá recuperar uma capacidade que desapareceu há décadas: a interceptação supersônica.


F-5 Tiger II pode voltar a operar na América do Sul
O Northrop F-5E/F Tiger II é um caça leve supersônico desenvolvido nos Estados Unidos a partir do F-5A/B Freedom Fighter. Com velocidade máxima próxima de Mach 1,6, o modelo foi projetado para executar missões de defesa aérea, interceptação e ataque ao solo. Sua combinação de dimensões relativamente compactas, manutenção simplificada e custos menores que os de caças mais pesados fez do F-5 um dos aviões de combate mais difundidos entre as décadas de 1970 e 1990.
Taiwan foi um dos maiores operadores do modelo no mundo. Durante décadas, os F-5 taiwaneses desempenharam funções de defesa aérea, treinamento, reconhecimento e combate. Porém, com a chegada de aeronaves mais modernas, como os F-16V, Mirage 2000 e os caças nacionais F-CK-1 Ching-kuo, a Força Aérea de Taiwan começou a retirar gradualmente os Tiger II de serviço. Os últimos F-5F e RF-5E taiwaneses foram oficialmente aposentados em julho de 2025. É justamente essa frota retirada que agora desperta o interesse de Assunção.
Uma oportunidade para a Força Aérea Paraguaia
Atualmente, a FAP não possui caças supersônicos operacionais. Sua aviação de combate é formada principalmente por aeronaves turboélice, como o Embraer A-29 Super Tucano e o AT-27 Tucano. Essas plataformas são adequadas para missões de patrulhamento, treinamento, vigilância, apoio aéreo e interceptação de aeronaves de baixa velocidade. O F-5 representaria um salto significativo de desempenho.
Um Tiger II poderia atingir aproximadamente Mach 1,6, permitindo ao Paraguai reagir muito mais rapidamente a uma ameaça aérea. A aeronave também poderia realizar missões de defesa aérea e ataque, oferecendo uma capacidade que atualmente não existe na FAP. A eventual aquisição, portanto, não significaria simplesmente adicionar um novo modelo à frota. Seria a reconstrução de uma capacidade de combate a jato perdida há décadas.


AT-33A e AT-26 Xavante foram os últimos vetores que utlizaram motores a jatos operados pela Força Aérea Paraguaia ( FAP ) - Reprodução Internet
A última experiência paraguaia com aeronaves de combate a reação ocorreu com os Embraer AT-26 Xavante. Os aviões foram incorporados à Força Aérea Paraguaia no final da década de 1970 e permaneceram em serviço até o início dos anos 2000. Desde então, o país não conseguiu manter uma frota de caças supersônicos operacional. Isso criou uma situação incomum na América do Sul: apesar de possuir uma posição estratégica no centro do continente e extensas fronteiras terrestres, o Paraguai não dispõe de uma aeronave de alta velocidade dedicada à interceptação. A chegada dos F-5 mudaria completamente esse cenário.
A-29 Super Tucano continuará sendo importante
A possível incorporação do Tiger II não significaria que o Paraguai abandonaria seus A-29 Super Tucano. Pelo contrário. As duas aeronaves poderiam desempenhar funções bastante diferentes. O A-29 é muito mais econômico e adequado para missões prolongadas de patrulhamento e vigilância. Sua capacidade é particularmente útil para combater voos ilícitos e monitorar o espaço aéreo em regiões de fronteira.
Já o F-5 seria empregado em missões que exigem maior velocidade e desempenho, especialmente interceptação e defesa aérea.
O Paraguai, portanto, poderia estabelecer uma estrutura baseada em dois níveis: aeronaves turboélice para as missões rotineiras e caças supersônicos para situações que exigissem uma resposta rápida.
Quantos F-5 poderiam ser transferidos?
Informações divulgadas pela imprensa especializada indicam que uma futura transferência poderia envolver entre 10 e 15 aeronaves.
Entretanto, esse número não foi confirmado oficialmente pelo governo paraguaio ou por Taiwan. O próprio ministro Óscar González evitou divulgar detalhes sobre quantidade, modelo e condições do possível acordo. Também será necessário avaliar cuidadosamente o estado das aeronaves disponíveis.
Os F-5 taiwaneses possuem décadas de operação. Antes de uma eventual transferência, seria necessário verificar a condição estrutural das células, motores, sistemas de aviônicos e disponibilidade de peças.Uma aeronave pode ser cedida gratuitamente ou por um valor reduzido e, ainda assim, exigir investimentos consideráveis para voltar a operar.
A questão dos Estados Unidos
A possibilidade de uma eventual transferência de F-5 de Taiwan para o Paraguai possui um aspecto histórico interessante. Nos anos 1990, Taiwan já havia planejado transferir 12 aeronaves desse tipo para o Paraguai. A operação, entretanto, não chegou a ser concretizada. Agora, aproximadamente três décadas depois, o mesmo modelo de aeronave volta a aparecer nas discussões entre os dois países. A possibilidade também se insere em uma relação diplomática particularmente próxima. Paraguai e Taiwan mantêm relações oficiais e vêm ampliando sua cooperação em diferentes áreas, incluindo o setor de defesa. Em junho de 2026, autoridades dos dois governos voltaram a destacar o fortalecimento da parceria estratégica bilateral.
Existe, porém, um fator diplomático e jurídico importante que pode influenciar qualquer eventual transferência. Embora os F-5 tenham sido utilizados por Taiwan durante décadas, a aeronave é de origem norte-americana. Por isso, uma eventual transferência para um terceiro país precisa considerar as regras e autorizações aplicáveis dos Estados Unidos. Essa questão não seria inédita. O Paraguai já demonstrou interesse em receber F-5 taiwaneses no passado, mas a tentativa de transferência não foi concretizada. Naquela ocasião, também havia a necessidade de autorização norte-americana para que as aeronaves pudessem ser transferidas. Dessa forma, mesmo que Taiwan e Paraguai cheguem a um entendimento sobre a transferência, outras etapas diplomáticas e legais ainda poderão ser necessárias antes que os aviões possam efetivamente ser entregues.
O episódio atual, portanto, não representa apenas uma possível aquisição de aeronaves de combate. Ele também retoma uma proposta discutida há cerca de três décadas e demonstra como as relações entre Paraguai e Taiwan continuam influenciando as questões de defesa dos dois países.


Além dos F-5 Tiger II, outro avião taiwanês que pode fazer parte de uma eventual transferência para o Paraguai é o AIDC AT-3 Tzu Chung, um treinador a jato avançado desenvolvido em Taiwan para preparar pilotos para a operação de aeronaves de combate. O projeto surgiu na década de 1970 como resposta à necessidade da Força Aérea da República da China de substituir seus antigos treinadores Lockheed T-33. A empresa Aerospace Industrial Development Corporation (AIDC) iniciou o desenvolvimento do novo avião e contou inicialmente com a colaboração da norte-americana Northrop. O primeiro protótipo realizou seu voo inaugural em 16 de setembro de 1980, e o AT-3 começou a ser entregue à Força Aérea de Taiwan em 1984.
O Tzu Chung possui uma configuração convencional, com dois assentos em tandem, um atrás do outro, e dois motores turbofan Garrett TFE731-2-2. Essa configuração permite que instrutor e aluno ocupem a mesma aeronave durante as fases mais avançadas da formação, proporcionando ao futuro piloto de caça uma experiência muito mais próxima daquela encontrada em aeronaves de combate. Segundo a própria AIDC, o AT-3 foi desenvolvido com foco em baixo custo de aquisição e operação, além de boa manobrabilidade e confiabilidade. O avião foi concebido principalmente para treinamento avançado de pilotos, mas também possui capacidade para realizar missões de ataque ao solo.
Um treinador com características de avião de combate
Embora seja classificado como treinador, o AT-3 não é simplesmente uma aeronave destinada à instrução básica. O avião possui dois motores turbofan, pode atingir aproximadamente 500 nós (cerca de 926 km/h) e possui teto operacional de aproximadamente 45 mil pés. Sua autonomia máxima chega a cerca de 1.230 milhas náuticas, segundo dados oficiais da Força Aérea de Taiwan.
Outro aspecto interessante é sua capacidade de transportar armamentos e cargas externas. O AT-3 possui sete pontos de fixação e pode carregar diferentes tipos de armamentos, incluindo foguetes, bombas e pods de armas. Algumas configurações também permitiam o emprego de mísseis ar-ar para autodefesa. Isso faz com que o avião possa desempenhar uma função secundária de ataque leve e apoio aéreo, além da sua principal missão de treinamento. Taiwan chegou inclusive a desenvolver variantes especializadas para ataque. Uma versão monoplace, conhecida como A-3, foi construída para missões de ataque ao solo, enquanto outras propostas buscavam ampliar a capacidade de ataque e apoio aproximado do modelo.
Por que o AT-3 seria importante para o Paraguai?
A possível transferência do AT-3 ganha importância justamente por causa dos F-5. Caso o Paraguai realmente receba os Tiger II, será necessário formar e manter uma nova geração de pilotos capazes de operar caças supersônicos. Utilizar diretamente os F-5 para todas as etapas do treinamento seria pouco eficiente e aumentaria o desgaste das aeronaves, que já possuem décadas de serviço.
O AT-3 poderia funcionar como uma ponte entre os treinadores turboélice e os caças supersônicos.
Atualmente, a Força Aérea Paraguaia utiliza aeronaves como o A-29 Super Tucano para treinamento avançado, patrulhamento e missões de ataque leve. Um treinador a jato como o AT-3 permitiria aos pilotos se familiarizarem com velocidades maiores, operação de motores a reação, procedimentos de voo em altitude e características de aeronaves de combate antes de realizarem a transição para o F-5.
Na prática, uma estrutura formada por A-29 + AT-3 + F-5 poderia criar uma cadeia de formação mais completa para a aviação de caça paraguaia.
O piloto poderia iniciar sua formação em aeronaves de menor desempenho, avançar para o AT-3 e, posteriormente, realizar a conversão operacional no F-5.
A possível transferência dos F-5 taiwaneses oferece ao Paraguai uma oportunidade relativamente barata de reconstruir sua aviação de caça. Entretanto, transformar essa oportunidade em uma capacidade militar realmente operacional exigirá investimentos em infraestrutura, manutenção, treinamento, peças de reposição, armamentos e horas de voo. O Paraguai também precisará decidir se vale a pena sustentar uma pequena frota de caças supersônicos enquanto amplia sua estrutura de vigilância aérea e recebe novos A-29.
Por enquanto, a negociação permanece em estágio preliminar. Não há contrato assinado, número oficial de aeronaves definido nem cronograma confirmado para entrega. Mas, caso as conversações avancem, o Paraguai poderá finalmente realizar um projeto que não conseguiu concretizar no passado: voltar a colocar caças supersônicos em seu espaço aéreo. E, décadas depois de retirar seus últimos jatos de combate, o F-5 Tiger II poderá ser justamente a aeronave responsável por devolver à Força Aérea Paraguaia a capacidade de interceptação supersônica.