MUNDO MILITAR
Por João Victor Castro, Forças Globais - 04 de Junho de 2026
A Força Aérea Brasileira (FAB) alcançou um marco significativo em sua jornada de modernização e fortalecimento da defesa nacional com a apresentação oficial do primeiro caça Gripen F, a versão biplace (dois assentos) da aeronave, no dia 2 de junho de 2026. A cerimônia de rollout, realizada nas instalações da Saab em Linköping, Suécia, não apenas celebrou a entrega de uma aeronave de ponta, mas também reafirmou a profunda e estratégica parceria de longo prazo entre Brasil e Suécia.
O Brasil se destaca como o cliente lançador global desta variante específica, um testemunho da colaboração intensa e do papel ativo desempenhado pela indústria nacional no codesenvolvimento do projeto. Empresas brasileiras de renome, como Embraer, AEL Sistemas e Akaer, foram peças-chave nesse processo, que não só resultou em uma aeronave adaptada às necessidades da FAB, mas também impulsionou um dos mais abrangentes programas de transferência de tecnologia já vistos no país, capacitando centenas de engenheiros e técnicos brasileiros.


Imagens fornecidas pela SAAB do novo Gripen F
O Gripen F, designado F-39F na FAB, é a versão de dois assentos da avançada série Gripen E. Embora compartilhe a mesma arquitetura revolucionária, sensores de classe mundial e desempenho de voo excepcional do modelo monoposto (E), a inclusão de uma segunda cabine totalmente independente confere vantagens operacionais e de treinamento sem precedentes.
Capacidades Aprimoradas da Cabine Traseira: O Oficial de Sistemas de Armas (WSO)
A principal função do Gripen F vai além do treinamento básico de pilotos. A presença de um segundo tripulante, que pode atuar como instrutor ou, crucialmente, como Oficial de Sistemas de Armas (WSO - Weapons System Officer), transforma a dinâmica da missão. Em cenários de combate modernos, onde a complexidade e o volume de informações são imensos, o WSO desempenha um papel vital:
"A apresentação do Gripen F representa uma conquista compartilhada entre a Saab, a indústria brasileira e a Força Aérea Brasileira, refletindo a profunda confiança que construímos juntos ao longo de muitos anos. Desenvolver esta aeronave em conjunto demonstra a maturidade desta colaboração." — Lars Tossman, chefe da área de negócios Aeronautics da Saab
Para acomodar o segundo assento e todos os sistemas associados, o Gripen F passou por modificações estruturais e de engenharia em relação ao Gripen E. A aeronave é aproximadamente 70 centímetros mais longa. Devido ao espaço ocupado pela segunda cabine e seus equipamentos, a versão biplace não integra o canhão interno de 27 mm presente na versão monoposto. No entanto, essa adaptação não compromete sua capacidade de combate, pois mantém os 10 pontos externos para fixação de uma vasta gama de armamentos e a capacidade de integração com os arsenais já utilizados pela FAB.

Apresentação do Caça - SAAB
Característica | Gripen E (F-39E) | Gripen F (F-39F) |
|---|---|---|
Tripulação | 1 (Monoposto) | 2 (Biplace - em tandem) |
Função Principal | Combate e Defesa Aérea | Treinamento Avançado e Combate Complexo |
Comprimento | 15,2 metros | 15,9 metros |
Canhão Interno | Sim (27 mm) | Não |
Pontos de Armamento | 10 | 10 |
Suíte EW | Arexis (integrada) | Arexis (integrada) |
Cockpit | Wide Area Display (WAD) | Wide Area Display (WAD) para ambos os tripulantes |
A parceria entre Brasil e Suécia no programa Gripen é um modelo de cooperação industrial e transferência de tecnologia. Mais de 600 mil horas de treinamento e 62 projetos foram realizados, capacitando centenas de engenheiros e técnicos brasileiros em áreas críticas como desenvolvimento, ensaios em voo, produção e manutenção de aeronaves de combate. O projeto de engenharia do Gripen F, em particular, teve uma participação equitativa de 50% de engenheiros suecos e 50% de profissionais brasileiros, demonstrando a confiança e a capacidade da engenharia nacional. As principais empresas brasileiras envolvidas e suas contribuições destacam o impacto transformador do programa:
Este programa não apenas elevou o patamar tecnológico da indústria de defesa brasileira, mas também gerou um significativo impacto socioeconômico, criando um ecossistema que sustenta mais de 12 mil empregos no Brasil, entre diretos e indiretos.
O contrato original do Projeto F-X2, assinado em 2014, previa a aquisição de 36 caças (28 Gripen E e 8 Gripen F) com entregas até 2026. Após renegociações e ajustes orçamentários, o cronograma foi estendido até 2032, com 11 aeronaves Gripen E já incorporadas à frota da FAB.
O primeiro Gripen F, após a fase de rollout, passará por uma rigorosa campanha de testes em voo no centro da Saab na Suécia para validação de todos os sistemas e desempenho. A expectativa é que a aeronave seja transportada por navio até Navegantes (SC) ainda em junho, seguindo por via terrestre e aérea até a Base Aérea de Anápolis (GO), onde será operado. A chegada efetiva ao Brasil está prevista para 2027.
O sucesso do programa Gripen no Brasil tem reverberado no cenário geopolítico global. Além do Brasil, Tailândia e Colômbia já formalizaram encomendas para versões do Gripen E/F. Há também um crescente interesse de outros países, como a Ucrânia, que assinou uma carta de intenções para adquirir até 150 unidades do Gripen E/F, e o México, que avalia a substituição de sua frota de caças. Essa demanda global crescente coloca a Saab em uma posição de expansão, e a capacidade de produção, incluindo a planta brasileira da Embraer, está sendo avaliada para atender a esse cenário, consolidando o Brasil como um potencial hub de exportação e manutenção para a América Latina e outras regiões.


Imagens do Gripen na Versão "E" e "F"
A chegada do Gripen F biplace representa muito mais do que a simples adição de uma nova aeronave à frota da FAB. É a materialização de uma visão estratégica que busca a soberania tecnológica, a capacitação industrial e a projeção do Brasil como um ator relevante no cenário global de defesa. A colaboração com a Suécia e a Saab não apenas fortalece as capacidades operacionais da Força Aérea, mas também impulsiona a inovação, a geração de empregos qualificados e o desenvolvimento de uma base industrial de defesa robusta e autossuficiente. O Gripen F é, portanto, um símbolo do futuro da aviação de combate brasileira, pautado pela excelência, tecnologia e cooperação internacional.