Mundo Militar
FAB Confirma Necessidade de 66 Caças Gripen para a Defesa Aérea do Brasil: Um Imperativo Estratégico
Por João Victor Castro, Forças Globais - 10 de Julho de 2026
A Força Aérea Brasileira (FAB) reconheceu oficialmente que a frota atualmente contratada de 36 caças F-39 Gripen E/F não é suficiente para atender integralmente às complexas e vastas necessidades da defesa aérea do Brasil. Esta revelação, contida em um documento encaminhado pelo Ministério da Defesa à Câmara dos Deputados, em resposta a um requerimento da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, estabelece claramente que a quantidade ideal de aeronaves para a FAB é de 66 unidades. Esta manifestação representa a primeira confirmação oficial do número considerado necessário pela Força Aérea desde a assinatura do contrato do Programa FX-2, em 2014. Embora o lote inicial tenha sido fundamental para iniciar a modernização da aviação de caça nacional, o próprio Comando da Aeronáutica admite que ele não cobre as exigências operacionais impostas pelas dimensões continentais do Brasil e pelos compromissos estratégicos da Força Aérea em um cenário geopolítico cada vez mais dinâmico.


Um País Continental Exige uma Força Aérea Robusta
Com uma extensão territorial que ultrapassa os 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil ostenta o quinto maior território do planeta. Além disso, possui uma Zona Econômica Exclusiva (ZEE) de aproximadamente 5,7 milhões de km², carinhosamente conhecida como "Amazônia Azul", que abrange vastas riquezas naturais e rotas marítimas estratégicas. A responsabilidade da FAB é imensa, abrangendo a garantia da soberania de um espaço aéreo que inclui toda a Amazônia, o extenso litoral atlântico, a estratégica região do Pré-Sal, fronteiras terrestres com dez países vizinhos, grandes centros industriais e urbanos, e inúmeras instalações estratégicas, tanto militares quanto civis.
Nesse contexto multifacetado, a Força Aérea Brasileira não se limita apenas à defesa aérea. Suas missões englobam a interceptação de aeronaves ilícitas, o policiamento rigoroso do espaço aéreo, o apoio essencial a operações conjuntas com outras Forças Armadas, a defesa de infraestruturas críticas e a participação ativa em exercícios internacionais, que são cruciais para a interoperabilidade e o aprimoramento de táticas. Diante de tal amplitude de responsabilidades, especialistas em defesa têm afirmado, há anos, que uma frota de apenas 36 aeronaves representa meramente o núcleo inicial da renovação da aviação de caça brasileira, sendo insuficiente para uma cobertura eficaz e contínua de todo o território e suas áreas de interesse estratégico.
O Programa Gripen: Um Salto Tecnológico e Industrial


O Programa FX-2 foi concebido com o objetivo primordial de substituir gradualmente os antigos caças Mirage 2000 e, posteriormente, parte da frota de F-5EM Tiger II e AMX A-1, aeronaves que, apesar de modernizadas, se aproximam do fim de sua vida útil. Após uma concorrência internacional rigorosa, que envolveu o Rafale francês, o F/A-18 Super Hornet americano e o Gripen NG sueco, o governo brasileiro escolheu a proposta da Saab em dezembro de 2013. O contrato inicial não se limitou à simples aquisição de aeronaves; ele estabeleceu um pacote abrangente que incluía 28 F-39E monopostos e 8 F-39F bipostos, além de uma robusta transferência de tecnologia, treinamento de pilotos e engenheiros, produção parcial das aeronaves em território brasileiro e um desenvolvimento conjunto entre a Saab e a Embraer. Mais do que adquirir um novo caça, o Brasil buscou desenvolver capacidade industrial e tecnológica para participar ativamente da fabricação e evolução futura da aeronave, garantindo autonomia e soberania tecnológica.
Produção Nacional: Fortalecendo a Indústria Brasileira
Um dos maiores diferenciais e legados do Gripen brasileiro é a ampla e estratégica participação da indústria nacional. A Embraer, em colaboração com diversas empresas brasileiras, desempenha um papel fundamental na fabricação estrutural, na integração de sistemas e no desenvolvimento de softwares da aeronave. Em 2026, a Embraer celebrou um marco significativo ao entregar o primeiro Gripen produzido integralmente na linha de montagem de Gavião Peixoto (SP). Este feito representa um salto tecnológico sem precedentes para a indústria aeronáutica nacional, consolidando o Brasil como um player relevante no cenário global de defesa. Essa capacidade industrial não apenas facilita futuras encomendas, mas também reduz custos logísticos a longo prazo e garante uma maior autonomia para manutenção, modernizações e adaptações da frota ao longo das próximas décadas, minimizando a dependência externa e fortalecendo a base industrial de defesa do país.
A Lógica por Trás dos 66 Caças: Disponibilidade Operacional e Cobertura


Segundo a FAB, o número de 66 aeronaves não é arbitrário, mas sim resultado de uma análise detalhada que leva em consideração diversos fatores operacionais e estratégicos. Entre eles, destacam-se a necessidade de cobertura simultânea de diferentes regiões do país, a manutenção de aeronaves em treinamento contínuo para garantir a qualificação dos pilotos, a disponibilidade constante para missões permanentes de alerta (QRA - Quick Reaction Alert), a necessidade de aeronaves em manutenção preventiva e corretiva, o apoio às demais Forças Armadas em operações conjuntas, e a capacidade de responder rapidamente a crises em diferentes fronteiras, muitas vezes de forma simultânea. Na prática, nenhuma força aérea consegue manter 100% de sua frota disponível para combate ao mesmo tempo. Uma parcela significativa dos caças permanece em manutenção programada, revisões periódicas, treinamento avançado ou modernizações, o que reduz o número efetivamente disponível para operações. Por esse motivo, especialistas em aviação militar costumam considerar que apenas entre 60% e 75% da frota está operacional em determinado momento. Com apenas 36 Gripen, isso significaria que, em situações normais, apenas cerca de 22 a 27 aeronaves estariam prontas para emprego imediato, um número claramente insuficiente para as demandas de um país do porte e complexidade do Brasil.
O Que o Gripen Oferece ao Brasil: Tecnologia de Ponta e Flexibilidade
O F-39 Gripen é amplamente considerado um caça de geração 4.5, representando o que há de mais moderno em tecnologia de aviação de combate. Entre seus principais recursos, destacam-se o radar AESA Raven ES-05, que oferece capacidade de detecção e rastreamento de múltiplos alvos com alta precisão; o sensor infravermelho IRST Skyward-G, que permite a detecção passiva de aeronaves inimigas; uma suíte avançada de guerra eletrônica, essencial para a autoproteção e a supressão de defesas aéreas adversárias; um datalink de alta velocidade, que garante a troca de informações em tempo real com outras aeronaves e centros de comando; e uma arquitetura aberta, que facilita futuras atualizações e a integração de novas tecnologias e armamentos. Além disso, o Gripen é conhecido por sua alta disponibilidade operacional e baixo custo por hora de voo, fatores cruciais para uma força aérea com recursos limitados.
A aeronave pode empregar uma vasta gama de armamentos modernos, incluindo mísseis IRIS-T para combate aéreo de curto alcance, mísseis Meteor de longo alcance (BVR - Beyond Visual Range) para engajamentos além do alcance visual, bombas guiadas de precisão, mísseis antinavio para operações marítimas e armamentos inteligentes de precisão para ataques a alvos terrestres. Sua combinação de sensores avançados, conectividade de última geração e capacidades de guerra eletrônica posiciona o Gripen entre os caças mais avançados atualmente em serviço na América Latina, conferindo à FAB uma vantagem tecnológica significativa na região.
Substituição dos F-5 e AMX: Uma Transição Necessária
Grande parte da atual capacidade de caça da FAB ainda depende dos veteranos F-5EM Tiger II, aeronaves originalmente fabricadas na década de 1970 e que passaram por extensas modernizações ao longo dos últimos anos. Apesar das atualizações, essas aeronaves aproximam-se inexoravelmente do fim de sua vida útil operacional, tornando sua substituição uma questão de urgência. O Gripen deverá assumir gradualmente todas as missões atualmente desempenhadas pelos F-5 e pelos AMX A-1, exigindo naturalmente uma frota maior do que as 36 unidades inicialmente contratadas para garantir uma transição suave e a manutenção da capacidade operacional da FAB. A substituição desses vetores mais antigos é crucial para manter a superioridade aérea e a capacidade de projeção de força do Brasil.
O Cenário Regional e o Desafio Orçamentário
Embora a América do Sul apresente um ambiente estratégico relativamente estável em comparação com outras regiões do mundo, diversos países mantêm programas contínuos de renovação e modernização de suas frotas de caça. O Chile, por exemplo, opera F-16 modernizados, enquanto a Colômbia avança em seu processo de substituição dos Kfir. A Argentina iniciou a incorporação de F-16 adquiridos da Dinamarca, e o Peru avalia a compra de uma nova geração de caças para substituir seus MiG-29 e Mirage 2000. Nesse cenário regional de modernização, manter uma frota numericamente limitada pode reduzir a capacidade brasileira de sustentar operações prolongadas em diferentes regiões do território e de manter uma dissuasão eficaz.
Apesar da necessidade operacional claramente reconhecida pela FAB, a aquisição de um segundo lote de caças Gripen dependerá, em última instância, da disponibilidade orçamentária do governo federal. Além da compra das aeronaves em si, será necessário um investimento substancial em infraestrutura das bases aéreas, simuladores de voo avançados, estoques de armamentos, peças de reposição, treinamento contínuo de pilotos e mecânicos, e contratos de suporte logístico de longo prazo. Ainda não existe um cronograma oficial para um novo contrato, mas a própria resposta da Aeronáutica ao Congresso demonstra que a expansão da frota permanece como um objetivo estratégico de longo prazo, essencial para a defesa e a projeção de poder do Brasil.
Uma Decisão Estratégica para as Próximas Décadas
Ao reconhecer oficialmente a necessidade de 66 caças F-39 Gripen, a FAB reforça que o atual lote de 36 aeronaves representa apenas a primeira etapa de um processo contínuo e vital de modernização da aviação de caça brasileira. A ampliação da frota não é vista apenas como uma questão de quantidade, mas como um imperativo de capacidade para garantir a cobertura adequada de um território continental, manter aeronaves em alerta permanente e substituir integralmente os vetores mais antigos e obsoletos. Com a produção nacional em andamento, a transferência de tecnologia consolidada e uma cadeia industrial já estabelecida, um eventual segundo lote de Gripen tende a ser mais vantajoso e estratégico do que iniciar um novo programa de caça do zero. A decisão final, entretanto, dependerá da prioridade que os próximos governos atribuírem aos investimentos em defesa e da disponibilidade de recursos para transformar a necessidade operacional da FAB em uma realidade concreta, assegurando a soberania e a segurança do espaço aéreo brasileiro para as próximas décadas.