Mundo Militar

Exército Brasileiro Busca Destravar Aquisição de 36 Obuseiros ATMOS: Um Imperativo para a Modernização da Artilharia

Por João Victor Castro, Forças Globais - 13 de Julho de 2026

Com o aval presidencial, o Exército Brasileiro avança nas negociações para a compra de 36 obuseiros autopropulsados ATMOS, com a proposta de montagem nacional na Avibras, visando fortalecer a Base Industrial de Defesa e acelerar a modernização da Artilharia de Campanha.

A modernização da Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro (EB) está prestes a receber um impulso decisivo. Após quase dois anos de um impasse burocrático e político, o governo federal, com o sinal verde do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, autorizou o avanço das negociações para a aquisição de 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 155 mm, desenvolvidos pela renomada empresa israelense Elbit Systems. O grande diferencial desta proposta, e o que a torna um ponto de virada, é a previsão de montagem e integração dos sistemas em território nacional, nas instalações da Avibras, em Jacareí (SP), em uma parceria estratégica com a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit. Esta iniciativa não apenas busca fortalecer a Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil, mas também visa superar os entraves políticos que paralisaram o programa desde 2024, demonstrando um compromisso renovado com a soberania e a capacidade de defesa do país.


Este projeto representa um dos mais importantes investimentos recentes na capacidade de fogo do Exército Brasileiro, que ambiciona substituir parte de sua artilharia rebocada, muitas vezes obsoleta, por sistemas modernos e ágeis, capazes de acompanhar o ritmo das operações mecanizadas e blindadas do século XXI. A transição de sistemas rebocados para autopropulsados é uma tendência global, impulsionada pela necessidade de maior mobilidade, proteção e capacidade de resposta rápida em cenários de conflito de alta intensidade.

O Impasse da Licitação e a Solução Estratégica

O processo de aquisição teve início em agosto de 2023, quando o Exército Brasileiro lançou uma concorrência internacional para o programa VBCOAP 155 mm SR (Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado Sobre Rodas). Diversos fabricantes de renome mundial apresentaram suas propostas, incluindo a Elbit Systems (com o ATMOS 2000), a KNDS/Nexter (com o CAESAR), a Norinco (com o SH-16), a MKE (com o Yavuz), a Excalibur Army e a CSG Defence. Após uma rigorosa avaliação técnica e operacional, o ATMOS 155 mm/52 calibres, instalado sobre um robusto caminhão Tatra T-815 6×6, foi declarado vencedor em abril de 2024, por atender plenamente a todos os requisitos exigidos pelo Exército Brasileiro, demonstrando sua superioridade técnica e operacional.


Entretanto, a assinatura do contrato foi abruptamente interrompida devido ao agravamento da guerra entre Israel e o Hamas. A posição crítica do governo brasileiro em relação às operações israelenses no conflito gerou um ambiente politicamente delicado para a compra de um sistema de defesa produzido por uma empresa de Israel, apesar da conclusão técnica impecável da licitação. Para contornar este obstáculo e garantir a continuidade do programa, uma alternativa engenhosa foi encontrada: ampliar significativamente a participação da indústria brasileira no programa, transformando um desafio político em uma oportunidade de desenvolvimento industrial.

A Solução Passa pela Avibras: Fortalecendo a Base Industrial de Defesa

A solução estratégica encontrada envolve a ampliação da participação da indústria brasileira no programa. Segundo as negociações em andamento, a AEL Sistemas, a Elbit Systems e a Avibras estão estudando um modelo no qual a empresa brasileira será a principal responsável pela montagem e integração dos obuseiros em suas instalações em Jacareí. Esta abordagem não apenas visa reduzir parte das resistências políticas à aquisição, mas, de forma mais importante, fortalece a Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil e pode contribuir significativamente para a recuperação da Avibras. A Avibras, apesar de enfrentar dificuldades financeiras nos últimos anos, permanece como uma das mais importantes fabricantes de sistemas militares do país, com um histórico de inovação e excelência em tecnologia de defesa. Recentemente, o comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, visitou as instalações da empresa, reforçando o interesse da Força na retomada de sua capacidade industrial e na participação em projetos estratégicos nacionais. Esta parceria representa um passo crucial para a sustentabilidade da indústria de defesa brasileira e para a garantia da soberania tecnológica do país.

O ATMOS: Mobilidade, Precisão e Poder de Fogo

O ATMOS (Autonomous Truck Mounted Howitzer System) é um obuseiro autopropulsado de última geração, desenvolvido pela Elbit Systems para oferecer elevada mobilidade, rapidez de emprego e um impressionante longo alcance. Entre suas principais características técnicas e operacionais, destacam-se:


  • Calibre de 155 mm e Tubo de 52 Calibres: Proporciona um alcance superior e maior poder destrutivo.


  • Montagem sobre Caminhão 6x6: Garante alta mobilidade tática e estratégica, permitindo rápida movimentação em diferentes tipos de terreno.


  • Elevado Grau de Automação: Reduz a carga de trabalho da tripulação e aumenta a precisão e a cadência de tiro.


  • Operação por Pequena Tripulação: Otimiza o uso de recursos humanos e aumenta a segurança da equipe.


  • Rápida Entrada e Saída de Posição (Shoot-and-Scoot): Permite que o sistema dispare e se desloque rapidamente para evitar o fogo de contrabateria inimigo, aumentando a sobrevivência no campo de batalha.

Dependendo da munição utilizada, o sistema pode atingir alvos a mais de 40 quilômetros, podendo ultrapassar essa distância com projéteis assistidos por foguete ou munições de longo alcance. Sua elevada mobilidade e automação permitem disparar poucos minutos após chegar à posição e deixar rapidamente a área antes que o inimigo possa realizar fogo de contrabateria, uma característica vital na guerra moderna. A capacidade de operar de forma independente e se integrar a redes de comando e controle modernas faz do ATMOS um multiplicador de força para qualquer exército.

Por Que o Exército Brasileiro Precisa Desse Sistema?

Grande parte da artilharia rebocada brasileira ainda utiliza obuseiros de gerações anteriores, alguns projetados durante a Segunda Guerra Mundial ou nas décadas seguintes. Embora esses sistemas continuem operacionais, apresentam limitações importantes em relação aos modernos campos de batalha, que exigem maior agilidade e precisão. As principais desvantagens incluem menor mobilidade, tempo maior para preparação do tiro, menor proteção da guarnição, menor alcance e integração limitada com sistemas digitais. O ATMOS permitirá ao Exército operar uma artilharia muito mais compatível com operações de alta intensidade, aumentando significativamente a capacidade de apoio às brigadas mecanizadas e blindadas, que são a espinha dorsal das forças terrestres modernas. A capacidade de fornecer apoio de fogo rápido e preciso é fundamental para o sucesso das operações terrestres, garantindo a superioridade no campo de batalha.

Integração com o Sistema ASTROS: Uma Sinergia Poderosa

A chegada do ATMOS complementará outro importante programa da Artilharia brasileira: o Sistema ASTROS 2020, desenvolvido justamente pela Avibras. Enquanto o ASTROS fornece um grande volume de fogo com foguetes e mísseis de longo alcance, o ATMOS oferece precisão e cadência de tiro com munição convencional de 155 mm, criando uma combinação de capacidades capaz de atender diferentes tipos de missões, desde o apoio direto a tropas até ataques de precisão contra alvos estratégicos. Essa integração amplia a flexibilidade operacional do Exército, permitindo empregar desde foguetes de saturação de área até tiros de precisão contra alvos específicos, otimizando o uso de recursos e maximizando o impacto no campo de batalha. A sinergia entre esses dois sistemas posicionará a artilharia brasileira entre as mais modernas e versáteis da América Latina.

Aspectos Financeiros e Benefícios para a Indústria

O contrato para a aquisição dos 36 obuseiros ATMOS está estimado em aproximadamente R$800 milhões, embora avaliações anteriores apontassem o valor de USD 210 milhões, dependendo da taxa de câmbio e dos pacotes logísticos incluídos. O cronograma original previa uma entrega inicial de duas viaturas para avaliação, testes operacionais rigorosos realizados pelo Exército, a contratação do lote restante após aprovação e entregas graduais até 2034. Além das viaturas, o contrato deverá incluir treinamento especializado, simuladores de última geração, peças sobressalentes, ferramental e suporte logístico de longo prazo, garantindo a plena operacionalidade do sistema.


Caso a montagem nacional seja confirmada, os ganhos para o Brasil vão muito além da aquisição militar. Entre os principais benefícios para a Base Industrial de Defesa (BID) estão a geração de empregos especializados de alta tecnologia, o fortalecimento da cadeia nacional de fornecedores, a recuperação da capacidade produtiva da Avibras, a absorção de tecnologia de ponta, a possibilidade de manutenção nacional independente e a redução da dependência de suporte externo. Embora o ATMOS seja um projeto israelense, a integração local pode abrir espaço para uma maior participação da indústria brasileira em futuras atualizações e programas de exportação, consolidando o Brasil como um polo de excelência em tecnologia de defesa.

Modernização da Artilharia de Campanha: Um Processo Contínuo

A aquisição dos ATMOS faz parte de um amplo e contínuo processo de transformação do Exército Brasileiro. Nos últimos anos, a Força vem investindo em programas estratégicos como o blindado Guarani, o Centauro II, o Sistema ASTROS 2020, os radares SABER e novos sistemas de comunicações e digitalização do campo de batalha. A incorporação de obuseiros autopropulsados sobre rodas representa mais um passo fundamental nessa modernização, alinhando o Brasil às tendências observadas em diversos exércitos da OTAN e de outras potências militares, que priorizam plataformas de alta mobilidade e rápida capacidade de deslocamento. Esta visão de futuro garante que o Exército Brasileiro esteja preparado para os desafios do século XXI.

Um Passo Importante para a Defesa Nacional

O avanço das negociações para a aquisição dos 36 obuseiros ATMOS representa um importante marco para a modernização da Artilharia do Exército Brasileiro. Além de substituir equipamentos antigos por um sistema moderno, móvel e de maior alcance, o programa também poderá impulsionar a recuperação da Avibras e fortalecer a Base Industrial de Defesa por meio da montagem nacional das viaturas. Caso o contrato seja finalmente assinado, o Exército dará um salto significativo em sua capacidade de apoio de fogo, aumentando a mobilidade, a precisão e a integração de suas unidades de artilharia. Em um cenário internacional cada vez mais marcado por conflitos de alta intensidade e pela necessidade de dissuasão eficaz, investir em sistemas modernos de artilharia deixa de ser apenas uma necessidade operacional e passa a ser um elemento estratégico para garantir a capacidade de dissuasão e a prontidão das Forças Armadas brasileiras, assegurando a defesa e a soberania do país em um mundo em constante mudança.

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