MUNDO MILITAR
Por João Victor Castro, Forças Globais - 12 de Junho de 2026
O cruzador pesado de mísseis de propulsão nuclear Admiral Nakhimov, da Marinha da Rússia, está na iminência de seu retorno ao serviço ativo, um evento que transcende a mera modernização de um navio de guerra.
Apelidado de "Estrela da Morte" devido ao seu porte colossal e ao formidável arsenal que carregará, este navio da classe Kirov representa não apenas um legado da engenharia naval soviética, mas também um símbolo potente da ambição russa de reafirmar sua presença global e seu poderio militar em um cenário geopolítico cada vez mais complexo . Sua reativação é um testemunho da persistência russa em manter capacidades de "águas azuis" e de sua adaptação estratégica aos desafios contemporâneos.


Imagens dos cruzadores da Classe Kirov Pyotr Velikiy e Admiral Nakhimov - Reprodução Internet
A história do Admiral Nakhimov remonta à era da Guerra Fria e à doutrina naval do Almirante da Frota da União Soviética, Sergei Gorshkov. Por quase três décadas, Gorshkov foi o arquiteto da transformação da Marinha Soviética, de uma força predominantemente costeira para uma marinha de "águas azuis" capaz de projetar poder em escala global e desafiar a hegemonia naval dos Estados Unidos.
Os cruzadores da classe Kirov, designados como Projeto 1144 Orlan (Águia do Mar) pela União Soviética, foram concebidos nas décadas de 1960 e 1970 com um propósito claro: neutralizar os grupos de porta-aviões da Marinha dos EUA e caçar submarinos de mísseis balísticos (SSBNs) inimigos. O tamanho massivo desses navios – com deslocamento de cerca de 28.000 toneladas e mais de 250 metros de comprimento – era uma necessidade técnica para acomodar os gigantescos sistemas de radar, os extensos arsenais de mísseis e o complexo sistema de propulsão nuclear da época.
Politicamente, a construção de navios tão grandiosos como os Kirov era também uma declaração de prestígio. Na União Soviética, o tamanho e a capacidade militar de uma embarcação eram diretamente proporcionais à influência política e ao status de superpotência. A classe Kirov foi, em muitos aspectos, a resposta soviética à reativação dos encouraçados da classe Iowa pelos EUA na década de 1980, simbolizando uma corrida armamentista naval e a busca por paridade estratégica.


Originalmente comissionado em 1988 como Kalinin, o navio foi renomeado Admiral Nakhimov em 1992, após o colapso da União Soviética. Ele permaneceu inativo desde 1999, aguardando um extenso e complexo programa de reconstrução e modernização no estaleiro Sevmash, em Severodvinsk. O relançamento ao mar em 2020 e a entrada na fase final de testes de mar de fábrica em 2026 marcam o ápice de um projeto que se estendeu por mais de duas décadas e consumiu um investimento estimado em até US$ 5 bilhões .
O objetivo central da modernização foi transformar uma plataforma da Guerra Fria em um combatente de superfície de ponta, capaz de enfrentar as ameaças assimétricas e de alta tecnologia do século XXI. Isso envolveu a substituição de praticamente todos os seus sistemas originais por uma nova suíte de mísseis, sensores avançados e um sistema de controle de combate integrado .
O Admiral Nakhimov modernizado se destaca por sua capacidade ofensiva e defensiva sem precedentes, tornando-o uma das plataformas de guerra de superfície mais armadas do mundo. Ele possui um total de 176 células de lançamento vertical (VLS) primárias, um número que supera a maioria dos combatentes de superfície globais . A transformação é mais bem compreendida através de uma comparação direta com sua configuração original:
Comparativo Técnico: Admiral Nakhimov (Original vs. Modernizado)
Sistema | Configuração Original (1988) | Modernização Projeto 11442M (2026) |
|---|---|---|
Mísseis Antinavio (ASW) | 20x P-700 Granit (SS-N-19 Shipwreck) | 80x Células UKSK (Zircon, Kalibr, Oniks) |
Defesa Aérea Longo Alcance | 12x Lançadores S-300F Fort (96 mísseis) | 96x Células S-400 Triumf (Navalizado) |
Defesa Aérea Médio Alcance | 2x Lançadores Osa-MA (40 mísseis) | Poliment-Redut (Células VLS dedicadas) |
Defesa de Ponto (CIWS) | 6x AK-630 ou Kashtan (CADS-N-1) | Pantsir-M (Híbrido Míssil/Canhão) |
Radares Principais | Top Steer (MR-710) / Top Pair (MR-800) | Radares AESA (Possível 5P-20K Poliment) |
Controle de Tiro | Top Dome (S-300F) / Front Dome | Sistemas Digitais Integrados Sigma-11442M |
Guerra Eletrônica | TK-25 (Analógico) | TK-25-2 (Digital / Integrado) |
Armamento de Tubo | 1x Canhão Duplo AK-130 (130mm) | AK-130 (Mantido, mas com controle modernizado) |

Comparativo Técnico: Admiral Nakhimov (Original vs. Modernizado)



Em primeiro plano vemos com mais detalhes o conjunto de radar que o Cruzador possui. - Reprodução Internet
O retorno do Admiral Nakhimov é de suma importância militar e simbólica para a Rússia de Vladimir Putin. Ele deverá atuar como o principal combatente de superfície da Frota do Norte, uma das mais estratégicas da Marinha russa, especialmente no contexto das crescentes tensões e interesses no Ártico
Papel Estratégico e Político:
Apesar de sua imponência e importância estratégica, a modernização do Admiral Nakhimov não esteve isenta de desafios. O programa sofreu sucessivos atrasos, expondo os limites da capacidade industrial e orçamentária da Rússia, especialmente em meio a sanções internacionais e pressões econômicas.
Alguns analistas ocidentais questionam a eficácia de investir tanto em um único navio de grande porte na era da guerra naval moderna, onde a proliferação de drones navais (USVs) e mísseis hipersônicos pode tornar a concentração de poder de fogo em uma única plataforma mais vulnerável. A guerra na Ucrânia, por exemplo, demonstrou a capacidade de pequenos drones de superfície em causar danos significativos a navios maiores . No entanto, para a Rússia, o valor estratégico, simbólico e de dissuasão do Admiral Nakhimov parece superar essas preocupações, reforçando a narrativa de uma Rússia forte e capaz de defender seus interesses.
O Admiral Nakhimov é mais do que um navio de guerra; é um símbolo da resiliência, ambição e determinação naval russa. Seu retorno ao serviço ativo, com um arsenal modernizado e capacidades aprimoradas, reafirma a Rússia como uma potência naval significativa, capaz de operar em múltiplos teatros e projetar seu poder em escala global. Em um mundo onde a geopolítica naval é cada vez mais disputada, a "Estrela da Morte" russa está pronta para brilhar novamente, com implicações profundas para o equilíbrio de poder marítimo internacional.